ENCERRAMENTO DE EXPOSIÇÃO VOO DUPLO NO DIA 13 DE OUTUBRO

VOO DUPLO
Maria Ribeiro
Francisco Trêpa

Até 13/10/21

Dois pássaros a voar

mais vale

– Adília Lopes

Com duas asas se levanta voo; com duas mãos se constrói algo imaterial; num espelho de água existe uma imensidão de reflexos; aos pares tudo se pode transformar em infinito.

Em Voo Duplo observamos o resultado e os vestígios de mais de um mês de trabalho colaborativo entre dois artistas em formato de residência onde são exploradas linguagens escultóricas e de performance audiovisual. Com o pátio da Galeria Diferença como ponto de partida para a construção de Sem título (evaporando I), observa-se a experimentação de uma prática artística vinculada a uma linguagem muito íntima que pretende explorar a imaterialidade.

A Maria Ribeiro e o Francisco Trêpa trabalham juntos a dimensão material do reflexo, que pode atuar como intermediário entre lugar e espectador. Com a dualidade dos espelhos, tanto no exterior como no interior da Galeria, o seu carácter de instalação alerta-nos para as particularidades invulgares estruturais deste lugar tão carregado de história.

A forte simplicidade inerente no poema de Adília Lopes (que introduz este texto) direciona o leitor para a consciencialização do desapego e da liberdade material que os artistas pretendem fazer presente no seu trabalho, e que simultaneamente homenageiam, apresentando-a num formato físico. Sendo o reflexo um factor fortemente presente nas instalações Sem título (evaporando I e II), estas esculturas constroem subtilmente diálogos entre lugar e espectador, estático e móvel, efémero e duradouro. Maria Ribeiro trabalha a dimensão material do reflexo e do que implica fenomenologicamente a percepção do mesmo por parte do observador. Francisco Trêpa, por sua vez, aborda uma esfera de processos que refletem sobre o conceito de armadilha através de métodos que capturam imageticamente a interação entre animal-alimento-espaço-corpo activador.

Em Grão a Grão e Sem título (agradecimento a Adília Lopes) o método de registo utilizado para captar a interação dos pássaros com a camera trap origina material documental e investigativo através da manipulação propositada do alimento (ou o acto de escrever e elaborar símbolos abstractos). Assim como o poema se refere à liberdade e ao desapego, também os pássaros que observamos no vídeo atuam como “performers” no seu habitat urbano, abordando assim a liberdade do seu livre arbítrio.

A dualidade anda de mãos dadas ao longo deste processo investigativo e expositivo. Está presente na sua vertente conceptual, previamente pensada e desenvolvida, assim como na vertente material, na execução e na co-autoria das obras apresentadas. Esta exposição, que engloba elementos de várias linguagens visuais, revela-se como um projecto muito próprio que nos mostra que através da captação de momentos se constroem narrativas alusivas à liberdade imaterial, esta que em última instância, pode ser a essência da criação.

Texto de Carolina Pelletier Fontes

Setembro 2021

vista de exposição Voo Duplo
vista de exposição Voo Duplo
vista de exposição Voo Duplo

CYAN
Isabel Dimas

Até 16/10/21

uma forma de luz / cianótipos de Isabel Dimas 2o21

a leveza não se traduz nem explica , não se ilustra nem comenta — como não se deseja nem se procura sem antes saber que há ., a riqueza que a suporta raramente é percebida .. surgem ambas sempre em estado simples ainda se o processo para a atingir esteja longe de o ser .

divagam imagens surtidas por entre imaginários : vagueiam como registos fósseis ., ou evocando linhas galácticas ., ou redes neurais ., filamentos de partículas sub-atómicas … , ou como meras folhas raízes poeiras e areias , mais acessíveis e ordinárias

contudo , aqui , os gestos para obter novas impressões , não são dirigidos a seres iluminados ( que revelarão o seu instante e presença pela luz ) , mas a sombras por fixar

( que se irão revelar , à luz , pelo tempo , variável )

a técnica é já idosa ., sem câmara , recupera o labor directo da luz solar , em superfícies quimicamente preparadas , mais opacas ou translúcidas , sobre elementos que farão / serão silhuetas e sombras , que assim ficarão registadas com o tempo que passa , de modo fiel mas sempre ligeiramente impreciso , a tons azuis fluidos , até ao ciano escuro

neste tipo de trabalhos , os desenhos serão sempre difíceis de negociar , ou sequer de fixar segundo uma hipotética forma ideal … muito se passa conforme o sol permite e as nuvens se comovem — que o ofício das suas sombras também deixa rasto — , mas nada acontece sem uma certa sensibilidade

na medida em que o sol impressor e o seu meio atmosférico o permitem , cada cianotipia é um registo , nunca completamente controlado , de trânsitos efémeros , da sua passagem e do seu encontro , cruzamento e concurso — tudo jogado a outro tempo ., mas , nestes casos,

em positivo ou em negativo , nenhuma prescinde de uma particular composição prévia : cada desenho da luz obedece a um trato que implicou sempre , na dis posição a imprimir , lances de risco jogados ao ( quase-controlado ) acaso solar … para uma certa perpetuidade

as ‘amostras’ serão um laborioso registo de sombras acesas , abstractas ou reconhecíveis , sob um fundo onde houve luz e agora se afunda o azul ( tão celeste ou marinho quanto ) ciano … luminoso . mas cada exposição de tempo variável supõe gestos de paciência , que exigem , por isso , além da atenção e controlo , uma certa ‘humildade’ ; tanto pela suspensão da vontade rápida em obter fins precisos , como pela aceitação do ‘erro’ durante os necessários testes / ensaios , em exercícios para fins sempre imprecisos e relativamente inesperados ., contemporizar é parte essencial deste lento processo — e a sua leitura sugere um tempo análogo .. a obra arrasta o trabalho que deu

não é fácil encontrar simplicidade em estado tão exposto , e , simultaneamente , com a riqueza mais que suficiente para brilhar pela discrição ; uma espécie de fragilidade que se afirma sem artificialidades em dimensões e escalas de mãos dadas .

a rememoração de técnicas , esquecidas ou abandonadas — substituídas por novas com outro tipo de custo e proveito — , pode surpreender pelo mero contraste com as mais actualizadas / habituais , ou , talvez sobretudo , pelo tipo de resulta dos plásticos obtidos .,

porém , esta proposta da Isabel Dimas , nua na sua simplicidade , ainda se não tivesse mais pretensões que mostrar o lado solar das sombras , surpreende também — como sinal de

( dolorosa ) actualidade , talvez comum e partilhada por quem as lê — pelo fundo desejo de leveza .. aquilo que a todas as sombras dá uma forma de luz .

Manuel Rodrigues . o7 . 21

vista de exposição Cyan
vista de exposição Cyan
vista de exposição Cyan