O sinal da águia, de Carlos Nejar – Ensaio de Diego Mendes Sousa

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O SINAL DA ÁGUIA: CARLOS NEJAR SOBRE O MAR DO TEMPO – Domingo com Poesia
Na peça O sinal da águia (Minotauro, 2021), com raiz penetrante na humana condição ou na condição humana, aberta ao susto do tempo, o narrador onipresente fomenta uma discussão alegórica sobre a realidade e termina por rejuvenescer os múltiplos sentidos da dor, da desesperança e da angústia.. Na epígrafe de abertura do romance, o alter ego do escritor Carlos Nejar (1939-), que se …
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O SINAL DA ÁGUIA: CARLOS NEJAR SOBRE O MAR DO TEMPO

Por Diego Mendes Sousa*

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Mitos fracassados, releituras de fatos, relatos, memórias, lembranças, esvaziamento dos sentimentos, sonhos, pesadelos, transposição, fortuna e miséria, transfiguração, o homem e o lobo, seus subterfúgios, seus alentos desesperados, seus abismos inadiáveis e terríveis.

Na peça O sinal da águia (Minotauro, 2021), com raiz penetrante na humana condição ou na condição humana, aberta ao susto do tempo, o narrador onipresente fomenta uma discussão alegórica sobre a realidade e termina por rejuvenescer os múltiplos sentidos da dor, da desesperança e da angústia.

Na epígrafe de abertura do romance, o alter ego do escritor Carlos Nejar (1939-), que se confidencia através do Longinus, afirma que: Não adiamos Deus (…) O verdadeiro poeta tem a memória da espécie.

Carlos Nejar arquiteta a sua personagem e protagonista com o nome de Alúvio Solário Analdo, que “molhado de palavras nasceu.”.

A águia é a representação do espírito profundo da visão privilegiada de Carlos Nejar, também de uma revoada sem destino, calhada no vocabulário encantador do mistério nejariano.

Tudo na águia é metafísico. Diz o provérbio que: “o que é do homem o bicho não come.”. Por intermédio de construções adversativas, o romance se arma de evocações que doutrinam o ritmo e o espetáculo da própria águia: ares, céu, ninho, caverna, imortalidade, metamorfose, olhos, caminho…

Em dez capítulos, Carlos Nejar tece uma fábula com poesia, inteligência, sensibilidade e, sobretudo, ousadia. A obra está repleta de sabedoria e de ensinamentos.

A claridade vai brotando das páginas, voando (ao mesmo instante enraizando) e adentrando a casa da alma.

De repente, o leitor encontra-se no centro do tempo, fisgado pelas garras da águia, sobrevoando o mar da eternidade.

Não à toa, Carlos Nejar dispara que “a loucura é apenas lento desequilíbrio entre o lobo e o homem.”.

A águia liberta o homem do jugo do lobo. A atmosfera do homem é a medida dos seus bichos insondáveis: águia, pássaro, rato, lobo, tigre, cavalo…

A estória realista e fantástica de O sinal da águia desenvolvese em Lajedo dos Pardais, lugar quimérico, com a absurda verdade da sociedade e as suas contradições: poder, inveja, penúria, disputas, crueldade, desumanidade, calamidades, doenças, revoltas, crimes… até a enigmática ferocidade dos instintos.

O leitor é conduzido ao espelho e o fictício é o rosto do vivido. Lajedo dos Pardais existe à margem do rio Arcanjo, um rio de solidões e espantos, que revigora a cidade e os seus habitantes.

Ressalta Carlos Nejar: “O rio não mente quando fala de si mesmo. As autobiografias, em regra, inventam, falseiam – pensou Alúvio – o rio, mesmo ao memoriar, é exato.”.

O presente romance é também metalinguístico. Traz à tona as cintilações da força literária de Carlos Nejar: Riopampa, Matusalém de Flores, Pedra das Flores, Assombro, a ideia extraordinária do círculo, além da releitura de poetas que preconizaram imagens redentoras, como Jorge Guillén, Rimbaud, Dante Alighieri, Gôngora, Jorge de Lima, Edgar Lee Masters, Paul Valéry (“Onde está o homem que não explorou em espírito a natureza abissal?”), dentre outros notáveis artistas do verso.

Considero O sinal da águia uma rica paródia sobre as ilusões e as desilusões contemporâneas (“A memória é esquecimento às avessas”).

Escrito no cume da pandemia do vírus da Covid-19, este livro é um visível testemunho sobre a sobrevivência e a continuidade da espécie humana.

O conjunto das personalidades inventadas por Carlos Nejar enfrenta os erros e salda os acertos, no entanto, o homem não deixa de ser o algoz do homem.

De acordo com Thomas Hobbes: “o homem é o lobo do homem.”.

Carlos Nejar enfatiza a metáfora das feras, porém é a esperança e a fé em Deus que trazem o substrato do infinito, o olhar engrandecido sobre as águas imemoriais e o oceano das conquistas sobre o mar (o crescimento do tempo) que abraçam as gerações, a fraternidade e o amor. O sinal da águia se traduz em luz.

A chave secreta deste romance é a digressão do tempo e do mar. Carlos Nejar apanha ainda o erotismo e a formosura da linguagem: “E o mar não acaba. E o orvalho atravessa a árvore. // E a concha fosfórea do sol e o mar que morre e não se acaba.”.

A expressão da madrugada coletiva está entranhada na racionalidade da criatividade nejariana e a sua invenção possui asas maiores que detém o rumor da filosofia e da profecia: “Não se pode evitar a luz! Não, não quero ser compreendido, mas compreender, sabendo que o que parecia velho, já se renovou. E a palavra tem infância!”.

A literatura de Carlos Nejar é feita para sentir, guiada por uma intuição capaz de impressionar, que escapa ao humano por pertencer ao gênio.

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*Diego Mendes Sousa é poeta e crítico brasileiro. Estudioso da obra completa do demiurgo Carlos Nejar, o maior poeta brasileiro vivo.

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Carlos Nejar I Foto: Arquivo do autor

FRAGMENTOS DO ROMANCE O SINAL DA ÁGUIA, DE CARLOS NEJAR, ESCOLHIDOS POR DIEGO MENDES SOUSA

Cada coisa tem seu tempo, só de nascer que não.

Nascer é de dentro. É sair de dentro, e o que nasce torna o tempo imóvel. Porque este ser parido de amor escapa do tempo.

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Aquela noite, Amantino Balzan queimava de desejo e se achegou à cama de Leocádia, quando o lobo dormia nalguma parte dele. Balzan não apanhava o desejo, o desejo o apanhava, aceso, como há muito não sentira. Um ardor na língua, de febre o corpo.

Deitou-se ao lado da mulher Leocádia, e ela o acatou, deitou-se nele. Ao estarem nus, o amor descia e subia neles. Homem, mulher entretecidos, tal se a fonte começasse dos seus corpos. E as almas iam de amor se aperfeiçoando, como no vaso a flor. E se estendia nas peles, à noite.

E quando o lobo se acordou nele, viu atônito e impotente que o homem estava inteiro dentro da mulher, como o firmamento que os cobria, com o ávido colher de cogumelos no bosque. Após, um peixe penetrava na fresta subterrânea da rocha. E intacto era o tempo.

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O homem se deforma com o lobo, até o lobo começar a perder a fé na água do homem. A loucura é apenas lento desequilíbrio entre o lobo e o homem. A loucura do lobo nele é a loucura do homem?

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O idiota não sabe nada do homem? Ou a morte amadureceu ou foi lúcida alguma vez? Tem rosto humano o ódio? Não, crianças e idiotas é que dizem a verdade! Mas a maldade é definitiva.

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O que não se acaba é amor. E tem ouvido novo de segurar o ruído do mar. Sim, dias após, sim, no amor não transita o tempo, sim, era outubro, e Alúvio e Matilde desceram para a praia. Diante deles surgiu o irmão do Oceano, o famoso Noé Matusalém: não inventou o mar, mas o mar o inventou. Não é o Matusalém bíblico, que viveu bem mais do que qualquer homem na história, mas outro Matusalém, que não morreu, não conseguiu morrer, por estar sempre recomeçado de palavra, como se vagasse no mar. Sem idade, altíssimo, ossudo, tez batida de sal e sol, olhos de muitos pássaros. Sorriu feliz de conhecer o casal que o admirava. Haviam lido o livro, de conhecido autor, a respeito dele.

E fama é cavalo veloz, às vezes traiçoeiro, há que saber montá-lo. Solário, solar, começou, saudando-o:

– Mestre do Oceano, consta que para você a morte não existe, conta-nos o milagre!

– Existo enquanto existem as palavras que me nutrem. E há milênio de palavras. Quando o milagre se repete, torna-se cotidiano.

– Milênio de palavras?

– Sim. As palavras me adotaram e a minha velhice é tenaz juventude.

– Como?

– indagou Matilde Petra, e pétreo foi o seu olhar, como se distraísse os olhos, com rosto que resplandecia de curiosidade.

– Se soubesse, explicava. Mas amor não se explica. Ou melhor, perdi a saudade nas ondas.

– De amor sabemos nós também! – exclamou Alúvio.

Matusalém assentiu com a cabeça, que se ataviava de obscura luz.

– O amor das palavras é de eternidade, quero estreitá-la – firmou, como se as mãos o seguissem, âncora.

E Matilde Petra entendeu e disse:

– É o que estou descobrindo no sonho.

E Matusalém: – Sou Crusoé do impossível. Mais do que o mar, minha terra é Deus.

– Deus é palavra! – observou Solário.

– A luz sabe o que faz e brotou de palavra. A luz é palavra. A água é palavra, também o céu!

– O que é eternidade? – completou Matilde Petra e lembrou o poeta Rimbaud, em frase que nunca esqueceu – “A eternidade é o mar que se vai / como o sol que cai”.

– Do mar penso conhecer tudo, ainda tenha a aprender – retrucou Matusalém -, e de sol me acendo no vagar. Não posso morrer e às vezes dá-me vontade de conhecê-la. Mas não posso impedir de ser eterno!

– Talvez canse a longevidade e a grandeza! – murmurou Matilde, cismando.

– Mas ao entrar no mar descanso, porque o mar subjuga o destino.

E se despediram, cativados, abraçando Noé Matusalém que, clareante, penetrou no Oceano. E não sabia se ele também era o mar.

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Mas a arte não é um navio que ruma ao porto, às vezes, é o porto que norteia o navio. E se o poeta não carrega no texto o relâmpago, é o relâmpago que leva o poeta para onde é a memória da imaginação que atraca o veleiro dos mitos.

Quando o livro termina, não termina de ter sido usado com suas colinas ou rios, termina de se apagar o sopro na palavra. Não se julga o que é vivo. E os mortos com os mortos se confinam.

Timóteo apanhava as palavras como peixes na linha de vocábulos, e os peixes se alimentavam, subiam à margem. E se tivesse algum descuido, subiam no anzol do sonho. O que vem do espírito pousa e vivifica, ou volta de onde veio. Não se perde de neblina ou na voragem do mundo. Ainda que a esperança se estique como uma corda.

E foi quando Timóteo gravou mais este verso: “a infância prende na linha a eternidade e não me resigno”.

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E ventava. Ventava a velocidade de Deus.

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Viver é fumaça; a coragem, faísca; o desejo, fogo. Com o começo, juízo do fim – assim pensou Alúvio Solário.

A ousadia zomba da ousadia diante do selo da palavra. Não havendo eloquência no jugo.

Sócrates achava a mobilidade da alma processo natural. Mas a mobilidade da palavra é destino. Solário, como homem, tinha a missão a cumprir. Quando a cumprir, a missão o acompanhará ou há de o suceder. E sucedendo, verão, como diz Ezequiel, que houve ali um profeta. E os profetas não adiam Deus.

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E o sinal da Águia não é um acidente, é a prática do Espírito que voa. Inebriado de Deus. A águia não se nega ao Absoluto e, como ela, voraz é o fruto do homem. E todas as letras e olhos ficam cegos diante do Espírito. Com chegada da Idade de Ouro.

Sim, cada coisa tem seu tempo, só de nascer que não. Nascer de Espírito é por dentro, quando não envelhece de Eternidade.

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(Diego Mendes Sousa e Carlos Nejar, no Rio de Janeiro)

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Na peça O sinal da águia (Minotauro, 2021), com raiz penetrante na humana condição ou na condição humana, aberta ao susto do tempo, o narrador onipresente fomenta uma discussão alegórica sobre a realidade e termina por rejuvenescer os múltiplos sentidos da dor, da desesperança e da angústia.. Na epígrafe de abertura do romance, o alter ego do escritor Carlos Nejar (1939-), que se …
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Na peça O sinal da águia (Minotauro, 2021), com raiz penetrante na humana condição ou na condição humana, aberta ao susto do tempo, o narrador onipresente fomenta uma discussão alegórica sobre a realidade e termina por rejuvenescer os múltiplos sentidos da dor, da desesperança e da angústia.. Na epígrafe de abertura do romance, o alter ego do escritor Carlos Nejar (1939-), que se …
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